ac3 Escreveu:
A mentalidade em Portugal é mais "bitaite primeiro, reflexão nunca".
De todos, o maior problema intrinseco à bitola estreita é simplesmente o ser diferente do resto da rede, ao ponto de interoperabilidade ser nula. O segundo, é o da menor estabilidade.
Mas os outros grandes problemas da bitola estreita têm a ver mais com os casos em que é necessária: traçados tortuosos onde não é viável usar bitola normal.
Normalmente, esses casos trazem consigo dois grandes problemas para o comboios: velocidade e distribuição populacional.
Nos traçados tortuosos em bitola estreita, a velocidade do comboio acaba por ser fortemente limitada pelo traçado, tornando ao comboio mais dificil de competir com o transporte individual em termos de tempo.
O segundo é que as regiões em questão normalmente têm uma população dispersa, que não concentra os seus movimentos ao longo da linha.
Vou só recordar uma coisa, o AP entre Aveiro e Ovar, dá os 220km/h em certas zonas, nunca baixa a sua velocidade abaixo dos 180km/h pelo menos, num traçado tortuoso, cheio de curvas, muitas delas com um ângulo bem fechado, mas também não é por isso que ele deixa de atingir os 220km/h.
O problema da linha estreita não está nos traçados tortuosos, que de facto até os tem, está sim na falta de renovação que infelizmente não permite que as velocidades praticadas nestas linhas sejam maiores. Dando exemplos disto também, a Linha do Tua/Corgo/Tâmega tem zonas onde se a linha o permitisse poderia dar os 120km/h facilmente, ao invés disso continua nos seus 20 km/h devido a falta de renovação da via.
Quanto à população dispersa é preciso não esquecer que Bragança e Viseu já foram servidos pela via Estreita, grandes aglomerados populacionais portanto. Certo que muitos dos apeadeiros e estações destas vias serviam meia dúzia de pessoas mas também muitos outros serviam muitos milhares de pessoas.
ac3 Escreveu:
Para terem uma ideia, à data do seu encerramento, a linha do Tua estava com 54.000 passageiros/ano (mais 80.000 nos 4km do Metro de Mirandela) e as do Corgo e Tâmega, uns 10.000 passageiros/ano cada uma. São 147 e 24 passageiros/dia, em média, respectivamente...
Só a do Vouga está noutro patamar, com mais de 600.000 passageiros/ano (principalmente entre Aveiro e Águeda).
É é importante que percebam: o comboio é, principalmente, um meio de transporte de massa. Se não há volume, é um elefante branco do ponto de vista económico, social e ambiental. E não podem obrigar as pessoas a usá-lo nem podem convencê-las com ilusões. As pessoas querem, resumidamente, tempo, conforto, segurança e dinheiro. As três últimas são fáceis mas o tempo... o tempo é tramado.
Eu concordo que as pessoas querem tempo, conforto, segurança e dinheiro, só acho que te esqueces-te de uma uma coisa. As linhas estreitas em Portugal estão quase primitivas, não sofrem renovações desde o tempo da sua aberta. Tem investimentos zero, isto é, nunca ninguém se lembrou de pensar que é preciso evoluir, renovar e dinamizar para que o conforto e a segurança sejam visíveis, para que as pessoas comecem a usar o comboio sabendo que irão viajar num comboio confortável e numa linha segura. Renovadas as linhas estreitas em Portugal certamente que reduziria em muito os tempos de ligação e ai sim poderia competir com o carro e o autocarro, ao invés disso, as velocidades de 20 km/h a que seguem os comboios da linha estreita hoje em dia não permitem que tal aconteça. Portanto, renovadas as linhas o tempo deixaria de ser um problema também. Quanto ao dinheiro, vamos reflectir um pouco... o dinheiro investido na renovação destas linhas certamente que iria ter retorno, todas estas linhas já andaram apinhadas de gente, gente que hoje em dia praticamente não tem como sair das suas isoladas aldeias (aqui falo especialmente das linhas de Trás - os - Montes). Com horários ajustados as necessidades das populações certamente que dinheiro tanto para quem investisse na modernização destas linhas, como para o utilizador destas linhas não seria um problema também. Não podemos esquecer que o comboio é muito mais barato que o carro ou autocarro.
ac3 Escreveu:
E quando ao exemplo espanhol? É dificil de transpor, pois a questão de escala e efeito de rede é incomparável.
Espanha tem hoje cerca de 1250 km de via estreira, mas já teve muito mais. O que sobra hoje em dia é principalmente um conjunto de linhas que, justamente, formam uma rede relativamente extensa no Norte de Espanha. O fabuloso comboio turistico que aparece na reportagem oferece aos turistas uma viagem de ... 650km!
Não há nem nunca houve em Portugal nada que se lhe compare. Tudo o que temos e tivemos foram algumas linhas separadas umas das outras.
Fonte Wikipédia
A estação de Chaves foi projectada para ser o terminal de 3 linhas: a do Corgo, a do Tâmega e a de Guimarães. As duas últimas juntar-se-iam um pouco acima de Cabeceiras de Basto, e viriam a encontrar a Linha do Corgo na Curalha, servida pelo apeadeiro de Tâmega. A Linha do Tâmega acabaria por nunca passar do Arco de Baúlhe, e a Linha de Guimarães não foi além de Fafe.Bastava depois ligar Bragança a Chaves e a Régua a Viseu para termos uma rede de comboios como a Espanhola.
A falta de aproveitamento do nosso potencial turístico nestas linhas é uma das coisas que mais me surpreende sinceramente.
É preciso não esquecer também que um senhor inglês quis reabrir a linha do Tâmega em toda a sua extensão, aliás tinha € para investir e comprovou a utilidade da linha e sabem como é que está a linha hoje em dia? Fechada em toda a sua extensão!
Se nós passamos a vida a ouvir falar do exemplo deste e daquele país, porque não podemos nós também seguir o exemplo espanhol relativamente as linhas estreitas? Será que só relativamente aos comboios é que são tudo maus exemplos? Acho que não, só acho é que as nossas mentalidades hoje em dia só se cingem ao carro, carro e depois carro.